Ora vivam!
Fraternidade e gratuidade são, no meu entender, dois dos valores mais urgentes para o nosso tempo. Por outras palavras – precisamos de conviver mais por amizade, e encontrarmo-nos menos por interesse.
Mais uma lição de vida, em que o CHC também colaborou. Paulo Azevedo é um jovem bem perto de nós, que nos pode dizer algo sobre os valores humanos.
Com amizade, Padre Pedro.

A 29 de Outubro de 1981 nascia sem aviso prévio e após uma gravidez de oito meses, Paulo Azevedo, um bebé diferente, sem mãos nem pernas, a quem os médicos não auguravam nada de bom. Natural da Redinha, uma pequena povoação do concelho de Pombal, ainda antes de fazer um ano de idade, Paulo e a mãe, na altura uma adolescente, mudaram-se para Alcoitão, onde ficou internado cerca de dois anos até começar a ser acompanhado em Coimbra. Por volta dos três anos de idade colocaram-lhe as primeiras próteses de pernas, sendo que nunca se adaptou às próteses de mãos. Antes de completar cinco anos de idade deu o seu primeiro passo sem qualquer apoio. No Natal de 1993 o avô materno ofereceu-lhe uma moto 4 amarela e a partir daí a Redinha e as redondezas deixaram de ter segredos para ele. Nessa altura Paulo Azevedo fazia já parte do Núcleo de Teatro do colégio que frequentava e começava secretamente a sonhar com uma carreira de actor. Depois de terminar o 12º ano ingressou no curso de jornalismo, na Universidade de Coimbra, que frequentou até ao terceiro ano, altura em que decidiu começar a trabalhar para poder financiar o curso de representação com que continuava a sonhar. Quase dois anos depois, num programa de televisão para o qual tinha sido convidado na sequência de uma reportagem da $portTV, falou publicamente do seu desejo de ser actor e o actor Tozé Martinho desafiou-o a fazer o curso de representação que leccionava, uma proposta que não hesitou em aceitar. Seguiu-se o convite para a reportagem "Uma Vida Normal", emitida pela SIC e que recentemente deu lugar a um livro com o mesmo título, e o convite de Nuno Santos e de Virgílio Castelo para integrar o elenco da telenovela "Podia Acabar o Mundo", actualmente em exibição na estação de Carnaxide, onde Paulo Azevedo interpreta o papel de Raimundo, um jovem advogado.

Aos 28 anos de idade Paulo Azevedo é um exemplo de força e de determinação.
DS – Depois da SlC ter emitido a reportagem “Uma Vida Normal” o que é que mudou na sua vida?
PA – A reportagem da Sofia Arêde mudou a minha vida radicalmente. Nessa altura, ao contrário do que aconteceu agora com o livro, não hesitei, porque sempre deixei bem claro que não queria passar uma imagem de “coitadinho”.
DS – Lembra-se da primeira vez que sonhou que queria ser actor?
PA – Na escola primária adorava participar nos “teatrinhos” que se faziam nas festas de Natal e de final do ano e quando entrei no liceu formámos um grupo de teatro. Aquilo que foi a partir daí que o “bichinho” foi crescendo. Sempre tive vontade de perseguir este sonho, mas nunca arrisquei, porque tinha medo de ser vitima de preconceito. Felizmente isso nunca aconteceu.
DS – Nem mesmo na escola?
PA – Sempre tive necessidade de pertencer ao grupo dos miúdos mais famosos da escola, porque pertencendo a esse grupo sabia que ninguém me excluía e que todos me protegiam. Aquilo que eu queria não era dar nas vistas, mas sim sentir-me integrado e protegido.
DS – Preocupa-o o que se seguirá à telenovela "Podia Acabar o Mundo" em exibição na SIC?
PA – Claro. Tenho medo que quando deixar de ser novidade deixe de ter trabalho. Ainda há pouco tempo partilhava isso com o Diogo Morgado e com o Pauto Rosa, o nosso realizador de exteriores. Dizia-lhes que tinha noção de que tinha de ter papéis especficos para mim e ambos ficaram surpreendidos. O Paulo Rosa disse-me que os papéis específicos só existem aos olhos do realizador ou do encenador. Nesta telenovela por exemplo, vou fazer uma cena em que tenho um acidente de mota e não tenho qualquer duplo. Vou fazê-la sózinho, porque sinto que a consigo fazer. Felizmente o Raimundo não é uma personagem gratuita em que a minha deficiência é explorada. Nesse aspecto a SIC tem-me protegido bastante, porque não está a esgotar a minha imagem. Sei que ainda não sou verdadeiramente actor, mas vou trabalhando para o ser.
DS – Se ser actor era um sonho de criança porque é que ingressou no jornalismo?
PA – Acima de tudo para fazer a vontade da minha familia, contudo, logo no final do primeiro ano percebi que não era aquilo que queria. Mesmo assim mantive-me no curso até ao terceiro ano, mas a determinada altura senti que tinha de tomar uma decisão. porque os anos estavam a passar e se queria arriscar tinha de ser o quanto antes. Por isso desisti do curso e fui trabalhar para tentar juntar o dinheiro necessário para vir para Lisboa fazer o curso de representação. Quando reuni as condições necessárias deixei tudo, vim para Lisboa e arrisquei mesmo sem nunca ninguém me ter dado esperanças de arranjar trabalho, mas o curso eu tinha de fazer, eu tinha de tentar.

DS — Tem essa força interior desde sempre?
PA — Acho que sim, no entanto também tenho dias menos bons, como toda a gente. Mas no essencial sou uma pessoa muito positiva desde que me apercebi de que era diferente dos outros meninos. A minha família sempre me disse que eu era diferente, mas que não era inferior. Além disso nunca me escondeu e isso foi fundamental para que eu não tivesse preconceitos. Reajo um bocado mal quando se referem a mim como um “coitadinho”, porque ser diferente não é sinónimo de ser inferior.
DS — Alguma vez se revoltou com a sua própria diferença?
PA — Não. Nunca. Sempre aceitei que se tinha nascido assim era assim que tinha de ir à luta. Acredito que um dia hei-de perceber porque é que nasci assim. Aliás, acho que essa explicação está a começar a surgir. Ouvi muitas vezes as pessoas comentarem que mais valia eu não ter nascido, essas pessoas, quando agora me vêem na televisão talvez tenham uma ideia diferente.
DS — Sente-se um exemplo?
PA — Não, embora últimamente sinta um pouco essa pressão. De certa forma o livro transmite todo o meu positivismo às pessoas e o feedback que tenho tido demonstra isso mesmo. Recebo diáriamente dezenas de emails no meu blog (http://pauloazevedo.portoeditora.pt) com declarações de pessoas que olham para mim como um exemplo, logo eu, que nunca quis ser um exemplo para ninguém e que em determinadas alturas da minha vida fui tudo menos uma pessoa exemplar.
DS — No livro confessa que por volta dos 12 ou 13 anos de idade pensou algumas vezes que talvez nunca nenhuma rapariga viesse a gostar de si. Esses pensamentos perturbavam-no?
PA — Não. Na adolescência, quando os namoricos e as atracções dos meus amigos começaram, pensei algumas vezes que o mais provável era que eu nunca fosse passar pelo mesmo, mas felizmente as coisas foram acontecendo naturalmente e, tal como qualquer outro rapaz da minha idade, fui-me envolvendo com algumas raparigas, até que conheci a Maria João. Nunca procurei o amor, se ele surgisse tudo bem, mas nunca o procurei, talvez para me defender.
DS — Considera-se um homem romântico? Como é que costuma celebrar o Dia dos Namorados?
PA — Nos últimos anos não tenho celebrado o Dia dos Namorados, porque considero que esse dia deve ser celebrado todos os dias do ano. Todos os dias devemos tentar supreender a pessoa amada. No fundo sou um romântico, mas não um romântico lamechas (risos). Gosto apenas de mimar a pessoa que amo.
DS — Qual foi a sua maior vitória pessoal?
PA — A minha maior vitória foi ter conseguido dar o primeiro passo em cima das próteses. Ninguém imagina as dores que as próteses me provocaram até me habituar a elas. Agora, o meu maior sonho é poder continuar a sonhar, ou seja, continuar a ter trabalho como actor e a ser independente e autónomo.
In Dica da Semana, 12 de Fevereio de 2009 - M. J. F.
Fraternidade e gratuidade são, no meu entender, dois dos valores mais urgentes para o nosso tempo. Por outras palavras – precisamos de conviver mais por amizade, e encontrarmo-nos menos por interesse.
Mais uma lição de vida, em que o CHC também colaborou. Paulo Azevedo é um jovem bem perto de nós, que nos pode dizer algo sobre os valores humanos.
Com amizade, Padre Pedro.

A 29 de Outubro de 1981 nascia sem aviso prévio e após uma gravidez de oito meses, Paulo Azevedo, um bebé diferente, sem mãos nem pernas, a quem os médicos não auguravam nada de bom. Natural da Redinha, uma pequena povoação do concelho de Pombal, ainda antes de fazer um ano de idade, Paulo e a mãe, na altura uma adolescente, mudaram-se para Alcoitão, onde ficou internado cerca de dois anos até começar a ser acompanhado em Coimbra. Por volta dos três anos de idade colocaram-lhe as primeiras próteses de pernas, sendo que nunca se adaptou às próteses de mãos. Antes de completar cinco anos de idade deu o seu primeiro passo sem qualquer apoio. No Natal de 1993 o avô materno ofereceu-lhe uma moto 4 amarela e a partir daí a Redinha e as redondezas deixaram de ter segredos para ele. Nessa altura Paulo Azevedo fazia já parte do Núcleo de Teatro do colégio que frequentava e começava secretamente a sonhar com uma carreira de actor. Depois de terminar o 12º ano ingressou no curso de jornalismo, na Universidade de Coimbra, que frequentou até ao terceiro ano, altura em que decidiu começar a trabalhar para poder financiar o curso de representação com que continuava a sonhar. Quase dois anos depois, num programa de televisão para o qual tinha sido convidado na sequência de uma reportagem da $portTV, falou publicamente do seu desejo de ser actor e o actor Tozé Martinho desafiou-o a fazer o curso de representação que leccionava, uma proposta que não hesitou em aceitar. Seguiu-se o convite para a reportagem "Uma Vida Normal", emitida pela SIC e que recentemente deu lugar a um livro com o mesmo título, e o convite de Nuno Santos e de Virgílio Castelo para integrar o elenco da telenovela "Podia Acabar o Mundo", actualmente em exibição na estação de Carnaxide, onde Paulo Azevedo interpreta o papel de Raimundo, um jovem advogado.

Aos 28 anos de idade Paulo Azevedo é um exemplo de força e de determinação.
DS – Depois da SlC ter emitido a reportagem “Uma Vida Normal” o que é que mudou na sua vida?
PA – A reportagem da Sofia Arêde mudou a minha vida radicalmente. Nessa altura, ao contrário do que aconteceu agora com o livro, não hesitei, porque sempre deixei bem claro que não queria passar uma imagem de “coitadinho”.
DS – Lembra-se da primeira vez que sonhou que queria ser actor?
PA – Na escola primária adorava participar nos “teatrinhos” que se faziam nas festas de Natal e de final do ano e quando entrei no liceu formámos um grupo de teatro. Aquilo que foi a partir daí que o “bichinho” foi crescendo. Sempre tive vontade de perseguir este sonho, mas nunca arrisquei, porque tinha medo de ser vitima de preconceito. Felizmente isso nunca aconteceu.
DS – Nem mesmo na escola?
PA – Sempre tive necessidade de pertencer ao grupo dos miúdos mais famosos da escola, porque pertencendo a esse grupo sabia que ninguém me excluía e que todos me protegiam. Aquilo que eu queria não era dar nas vistas, mas sim sentir-me integrado e protegido.
DS – Preocupa-o o que se seguirá à telenovela "Podia Acabar o Mundo" em exibição na SIC?
PA – Claro. Tenho medo que quando deixar de ser novidade deixe de ter trabalho. Ainda há pouco tempo partilhava isso com o Diogo Morgado e com o Pauto Rosa, o nosso realizador de exteriores. Dizia-lhes que tinha noção de que tinha de ter papéis especficos para mim e ambos ficaram surpreendidos. O Paulo Rosa disse-me que os papéis específicos só existem aos olhos do realizador ou do encenador. Nesta telenovela por exemplo, vou fazer uma cena em que tenho um acidente de mota e não tenho qualquer duplo. Vou fazê-la sózinho, porque sinto que a consigo fazer. Felizmente o Raimundo não é uma personagem gratuita em que a minha deficiência é explorada. Nesse aspecto a SIC tem-me protegido bastante, porque não está a esgotar a minha imagem. Sei que ainda não sou verdadeiramente actor, mas vou trabalhando para o ser.
DS – Se ser actor era um sonho de criança porque é que ingressou no jornalismo?
PA – Acima de tudo para fazer a vontade da minha familia, contudo, logo no final do primeiro ano percebi que não era aquilo que queria. Mesmo assim mantive-me no curso até ao terceiro ano, mas a determinada altura senti que tinha de tomar uma decisão. porque os anos estavam a passar e se queria arriscar tinha de ser o quanto antes. Por isso desisti do curso e fui trabalhar para tentar juntar o dinheiro necessário para vir para Lisboa fazer o curso de representação. Quando reuni as condições necessárias deixei tudo, vim para Lisboa e arrisquei mesmo sem nunca ninguém me ter dado esperanças de arranjar trabalho, mas o curso eu tinha de fazer, eu tinha de tentar.

DS — Tem essa força interior desde sempre?
PA — Acho que sim, no entanto também tenho dias menos bons, como toda a gente. Mas no essencial sou uma pessoa muito positiva desde que me apercebi de que era diferente dos outros meninos. A minha família sempre me disse que eu era diferente, mas que não era inferior. Além disso nunca me escondeu e isso foi fundamental para que eu não tivesse preconceitos. Reajo um bocado mal quando se referem a mim como um “coitadinho”, porque ser diferente não é sinónimo de ser inferior.
DS — Alguma vez se revoltou com a sua própria diferença?
PA — Não. Nunca. Sempre aceitei que se tinha nascido assim era assim que tinha de ir à luta. Acredito que um dia hei-de perceber porque é que nasci assim. Aliás, acho que essa explicação está a começar a surgir. Ouvi muitas vezes as pessoas comentarem que mais valia eu não ter nascido, essas pessoas, quando agora me vêem na televisão talvez tenham uma ideia diferente.
DS — Sente-se um exemplo?
PA — Não, embora últimamente sinta um pouco essa pressão. De certa forma o livro transmite todo o meu positivismo às pessoas e o feedback que tenho tido demonstra isso mesmo. Recebo diáriamente dezenas de emails no meu blog (http://pauloazevedo.portoeditora.pt) com declarações de pessoas que olham para mim como um exemplo, logo eu, que nunca quis ser um exemplo para ninguém e que em determinadas alturas da minha vida fui tudo menos uma pessoa exemplar.
DS — No livro confessa que por volta dos 12 ou 13 anos de idade pensou algumas vezes que talvez nunca nenhuma rapariga viesse a gostar de si. Esses pensamentos perturbavam-no?
PA — Não. Na adolescência, quando os namoricos e as atracções dos meus amigos começaram, pensei algumas vezes que o mais provável era que eu nunca fosse passar pelo mesmo, mas felizmente as coisas foram acontecendo naturalmente e, tal como qualquer outro rapaz da minha idade, fui-me envolvendo com algumas raparigas, até que conheci a Maria João. Nunca procurei o amor, se ele surgisse tudo bem, mas nunca o procurei, talvez para me defender.
DS — Considera-se um homem romântico? Como é que costuma celebrar o Dia dos Namorados?
PA — Nos últimos anos não tenho celebrado o Dia dos Namorados, porque considero que esse dia deve ser celebrado todos os dias do ano. Todos os dias devemos tentar supreender a pessoa amada. No fundo sou um romântico, mas não um romântico lamechas (risos). Gosto apenas de mimar a pessoa que amo.
DS — Qual foi a sua maior vitória pessoal?
PA — A minha maior vitória foi ter conseguido dar o primeiro passo em cima das próteses. Ninguém imagina as dores que as próteses me provocaram até me habituar a elas. Agora, o meu maior sonho é poder continuar a sonhar, ou seja, continuar a ter trabalho como actor e a ser independente e autónomo.
In Dica da Semana, 12 de Fevereio de 2009 - M. J. F.
Sem comentários:
Enviar um comentário